segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Notas pessoais sobre "O Zahir" de Paulo Coelho

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Sabem que eu, desde a minha adolescência, tomo notas (de literatura) do que acho interessante, útil dos livros que leio. Pois bem, do livro “O Zahir” de Paulo Coelho, editora Circulo de Leitores, Lisboa, Fevereiro de 2006, já tomei as seguintes notas, algumas parafraseio, que venho partilhar convosco.

(p.28) “Liberdade não é a ausência de compromisso, mas a capacidade de escolher e de me comprometer com o que é melhor para mim.”

(p.38) “A maioria das pessoas, mesmo bem-intencionadas, apenas seguem este ou aquele dogma. A maior parte das vezes, tornam-se fanáticas justamente porque o fanatismo é a única saída para as dúvidas que não cessam de provocar a alma do ser humano.”

(p.38) “Andar pelo Caminho de Santiago, entrar em contacto com pessoas comuns, descobrir que o Universo fala uma linguagem individual – 'sinais' – e que para a entender basta olhar com a mente aberta para o que acontece à nossa volta. (…) Basta prestar atenção; as lições chegam sempre quando se está pronto e, se se estiver atento aos sinais, aprende-se sempre tudo o que é necessário para o próximo passo.”

(p.38) “O ser humano tem dois grandes problemas:
1.o – saber quando começar;
2.o – saber quando parar;”
isto é, saber quando acaba um ciclo na sua vida e começa outro porque os ciclos não dependem de nós.

(p.40) “Actualmente, em Paris, os cafés são lugares de turistas com fotos das pessoas que fizeram fama. (…) Muitos escritores estão mais preocupados com o estilo do que com o conteúdo; tentam ser originais, mas só conseguem ser aborrecidos. Estão fechados no seu mundo onde se aprende a 'reenviar o elevador', isto é, eu falo bem do teu livro, tu falas bem do meu livro e cria-se uma nova vida intelectual, um novo pensamento filosófico. Ninguém nos entende, mas não faz mal; sempre foi assim com os génios.

No início, conseguem algum resultado, mas logo as pessoas se dão conta de que estão a ser enganadas e deixam de acreditar no que a crítica está a dizer.

A Internet veio mudar isto: novos escritores esforçam-se por que as suas palavras e as suas almas sejam compreendidas.”
(p.44) “Percebo, pela primeira vez, que todas as minhas frustrações nos relacionamentos amorosos nada tinham a ver com elas, mas com a minha própria amargura. Para poder encontrar-me com alguém, eu preciso primeiro de me encontrar comigo.” 





(pp. 65-66) “Catedral de Santa Maria em Santiago de Compostela:
No princípio havia uma muralha.
Em seguida, a muralha continuou ali, mas uma das paredes foi usada para a construção de uma capela.
Dezenas de anos passaram, a capela transformou-se numa igreja.
Mais um século e a igreja tornou-se uma catedral gótica. A catedral coneceu os seus momentos de glória, teve alguns problemas de estrutura, foi abandonada por um período, passou por reformas que deformaram a sua estrutura, mas cada geração achava que tinha resolvido o problema e refazia os planos originais.
Assim nos séculos que se seguiram, erguiam uma parede aqui, demoliam uma viga acolá, acrescentavam reforços deste lado, abriam e fechavam os vitrais.
A catedral resistia a tudo.
Desta vez os arquitectos garantem que encontraram a melhor solução.
De repente, no meio da nave central, dou-me conta de algo muito importante:
a catedral sou eu; é cda um de nós. Vamos crescendo, mudando de forma, deparamo-nos com algumas fraquezas que têm de ser corrigidas; nem sempre escolhemos a melhor solução, mas, apesar de tudo, continuamos em frente, tentando manter-nos erectos, correctos de modo a honrar não as paredes nem as portas ou janelas, mas o espaço vazio que está ali dentro; o espaço onde adoramos e veneramos aquilo que nos é caro e importante.
Sim, somos uma catedral!
Esta catedral recorda-me que todos os dias preciso de me reconstruir a mim próprio e aceitar a importância do outro na minha vida.    


(p.93) N”A Divina Comédia” do poeta italiano Dante:

“No dia em que o homem permitir que o verdadeiro Amor (Afectividade) apareça, as coisas que estão bem-estruturadas, transformar-se-ão em confusão e irão pôr em causa tudo aquilo que achamos certo e como verdadeiro.”

Na minha opinião, a Era da Afectividade já faz parte do presente, mas o mundo continua a reger-se pelas relações de poder/submissão que estão impregnadas da posse e não possuem qualquer afectividade. As relações desta (actual) Era são de igualdade de direitos e deveres, competências e responsabilidade individual que expulsam as relações de submissão que são do sistema esclavagista. Esta é/vai ser a grande causa de conflitos a todos os níveis. Eu já sei quais as relações que vão ganhar: as de igualdade de direitos e deveres, competências e responsabilidade individual e estas foram introduzidas na sociedade por Jesus Cristo com o testemunho de S. Paulo nesta frase “já não há mais grego nem judeu, circunciso ou incircunciso, nem escravo nem livre; mas Jesus Cristo que é tudo em todos. ” (Col 3, 11) Por conseguinte, estamos todos ao mesmo nível com um Mestre e Senhor – Jesus Cristo e Deus, Senhor do Senhor Jesus Cristo e por Deus que nos concedeu o livre arbítrio.

(p.123) “Três coisas importantes:
1.a – no momento em que as pessoas resolvem encarar um problema, elas dão-se conta de que são muito mais capazes do que pensam.
2.a – toda a energia (Afectividade), toda a sabedoria vêm da mesma fonte: Deus. O que tento na minha vida, desde que comecei a seguir aquilo que considero o meu caminho, é honrar Deus, ligar-me a essa Fonte todos os dias, deixar-me guiar pelos sinais, aprender enquanto faço e não, enquanto penso fazer.
3.a – ninguém está só nas suas tribulações; existe sempre mais alguém a pensar, a alegrar-se ou a sofrer da mesma maneira e isso dá-nos força para encarar melhor o desafio que temos diante de nós. Se o sofrimento está junto de nós, então é melhor aceitá-lo; o mesmo com a alegria.”

(p.105-06) “Teillard de Chardin: «Já dominamos a energia do vento, dos mares, do sol; mas no dia em que o homem (e a mulher) souber aceitar a energia do Amor (Afectividade) será algo tão importante como o foi a descoberta do fogo.»

Se uma pessoa é capaz de amar o seu parceiro sem restrições, sem condições; ela está a manifestar o amor de Deus. Ao manifestar o amor de Deus, ela ama o próximo e ao amar o próximo ama-se a si mesma e ao amar-se a si mesma, tudo volta ao seu lugar e a História muda. A História muda quando soubermos usar a energia do Amor como sabemos usar a energia do vento, dos mares, do átomo.”

(p.140) “Em todas as relações humanas, a coisa mais importante é a conversa; mas as pessoas já não o fazem – sentar-se para falar e para ouvir os outros. É importante voltarmos a reunir-nos à volta da lareira e conversar, contar estórias/histórias.”  

(p. 169-170) “Suponhamos que dois bombeiros entram numa floresta para apagar um pequeno incêndio. No fim, quando saem e vão para a beira de um riacho, um deles tem a cara toda coberta de cinzas e o outro está imaculadamente limpo. Pergunto: qual dos dois vai lavar a cara?

- É uma pergunta tola; é evidente que será o que está coberto de cinzas.

- Errado; o que tem a cara suja vai olhar para o outro e pensar que está igual a ele. E viceversa, o que tem a cara limpa vai ver que o seu companheiro está com fuligem por toda a parte e dizer para si mesmo: “Também devo estar sujo. Tenho de me lavar.”

- Procurei-me sempre nas mulheres que amei. Eu olhava para os seus rostos limpos, lindos e via-me reflectido nelas. Por outro lado, elas olhavam para mim, viam as cinzas que cobriam a minha face e, por mais inteligentes e mais seguras que fossem, acabavam também por se ver reflectidas em mim e achar-se piores do que eram.

Isto aconteceu com Ester. Eu absorvia sempre a sua luz, a sua energia o que me deixava feliz, seguro, capaz de prosseguir. Ela olhava para mim e sentia-se feia, diminuída porque, à medida que os anos passam, a minha carreira ia deixando a nossa relação para segundo plano. Por isso, ela partiu.
Agora, antes de me encontrar com ela, preciso de me encontrar comigo.
(continua)

sábado, 17 de setembro de 2011

Poema de Konstantinos Kavafis

       Venho partilhar convosco este poema que tem a sabedoria de vida de um GRAAL e de tantos outros ensinamentos …

Poema de Konstantinos Kavafis (1863-1933) in livro “O Zahir” de Paulo Coelho, editora Circulo de Leitores, Lisboa, Fevereiro de 2006, pp.9-10.

Quando partires em direcção a Ítaca
         que a tua jornada seja longa,
         repleta de aventuras,
         plena de conhecimento.

Não temas Laestrigones e Cíclopes
         nem o furioso Poseídon;
         não irás encontrá-los durante o caminho
         se o pensamento estiver elevado, se a emoção
        jamais abandonar o teu corpo e o teu espírito.
        Laestrigones e Cíclopes e o furioso Poseídon
        não estarão no teu caminho
        se não os levares na tua alma,
       se a tua alma não os colocar
       diante dos teus passos1.

Espero que a tua estrada seja longa.
         Que sejam muitas as manhãs de verão,
         que o prazer de ver os primeiros portos
         traga uma alegria nunca vista.
         Procura visitar os empórios da Fenícia,
         recolhe o que lá há de melhor.
         Vai às cidades do Egipto,
         aprende com um povo que tem tanto a ensinar.
       
         Não percas Ítaca de vista,
         pois chegar lá é o teu destino,
         mas não apresses os teus passos.
         É melhor que a jornada demore muitos anos
         e o teu barco só ancore na ilha
         quando já estiveres enriquecido
         com o que conheceste no caminho.
        
Não esperes que Ítaca te dê mais riquezas.
         Ítaca já te deu uma bela viagem;
         sem Ítaca, jamais terias partido.
         Ela já te deu tudo e nada mais te pode dar.

Se no final achares que Ítaca é pobre;
         não penses que ela te enganou.
         Tornaste-te um sábio,
         viveste uma vida intensa
         e este é o significado de Ítaca.❐

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Poesia de Manuel Alegre

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Transcrevo alguma poesia do poeta Manuel Alegre. Não são os poemas mais conhecidos, apesar de gostar deles; mas dos desconhecidos, aqueles que prefiro partilhar. O poeta Manuel Alegre faz parte dos poetas portugueses que mais se destacam na Poesia Portuguesa pelo seu mérito. São poemas que se encontram no livro “30 Anos de Poesia” da Publicações Dom Quixote, 2.a edição, 1997.

Regresso (p.167)
E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calecute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

É preciso um país (p.168)

Não mais Alcácer Quibir.
É preciso voltar a ter uma raiz
um chão para lavrar
um chão para florir.
É preciso um país.

Não mais navios a partir
para o país da ausência.
É preciso voltar ao ponto de partida
é preciso ficar e descobrir
a pátria onde foi traída
não só a independência
mas a vida.

Portugal em Paris (p.189)

Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente solitário
nas ruas de Paris.

Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.

Lusíada exilado (p.199)
Nem batalhas nem paz: obscura guerra.
Dói-me um país neste país que levo.
Sou este povo que a si mesmo se desterra
meu nome são três sílabas de trevo.

Há nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E há um naufrágio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

(...)
Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a mágoa como se lavrar
não fosse mais do que a perdida guerra
entre o não ser na terra e o ser no mar.

Eu que parti e que fiquei sempre presente
eu que tudo mandava e nunca fui senhor
eu que ficando estive sempre ausente
eu que fui marinheiro sendo lavrador.

Eu que fiz Portugal e que o perdi
em cada porto onde plantei o meu sinal.
Eu que fui descobrir e nunca descobri
que o porto por achar ficava em Portugal.

Eu que fiz tudo e nunca tive nada
eu que trago nas mãos o meu país
eu que sou esta árvore arrancada
este lusíada sem pátria em Paris.

Pátria expatriada (p.191)
Procuras Portugal em Portugal
e não o encontras e não o vês
lá onde o mal
se afina e o bem se dana e Portugal
já não é português.

Procuras Portugal e andas com ele
nos mil destinos do teu destino.
Dói-te na pele.
Babilónia Sião Paris Babel
meu povo peregrino.

Seja Babel a Torre Eiffel. Paris
a Babilónia. Sempre Sião
é uma raíz
que dói. Meu Portugal: pátria sem pão
de país em país.

Em chão estrangeiro a dor por ministério.
Pátria exportada: Império novo
ou cemitério?
E o estrangeiro é meu povo.

Canta dentro de mim pátria exilada
com tua fome com teu cansaço
e revoltada
descalça em minha voz nua em meu braço
meu canto minha espada.

(...)
Povo que foste ao mar onde colheste
teu fruto amargo: pátria de sal.
E o mar é este:
procuras pelo mundo o Portugal
que em Portugal perdeste.

(...)
Abre dentro de mim a longa estrada.
Teu coração navio ou asa
teu braço o arado tua mão a espada
vamos: é tempo de voltar a casa.

Porque tiveste o mar nada tiveste.
A tua glória foi teu mal.
Não te percas buscando o que perdeste:
procura Portugal em Portugal.


Correio (p.211)
Chegam cartas. Chegam pedaços
do meu país.
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.
Chegam notícias do meu país.

(...)
Chegam palavras com guitarras de Lisboa
chegam palavras que me sentam à sua mesa
para falar das nossas coisas: trigo e tristeza.
trevo e sal.
Chegam palavras que me trazem vinho e boroa.
Chegam palavras que me trazem Portugal.


Ser e não ser (p.221)
«Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca»
Shakespeare, “Hamlet”

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Até quando? Até quando?


Letra para um hino (p.234)
É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar, não tenhas medo: canta!

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser (mulher e) homem.
É possível ser livre livre livre.


O poeta (p.268)
Quando um homem se põe a caminhar
deixa um pouco de si pelo caminho.
Vai inteiro ao partir repartido ao chegar.
O resto fica sempre no caminho
quando um homem se põe a caminhar.

Fica sempre no caminho um recordar
fica sempre no caminho um pouco mais
do que tinha ao partir do que tem ao chegar.
Fica um homem que não volta nunca mais
quando um homem se põe a caminhar.

Vão-se os rios sem margens para o mar.
Ai rio da memória: só imagens.
O mais é só um verde recordar
é um ficar (sem as levar) nas verdes margens
quando um homem se põe a caminhar.


Velho (p.287)
Todo o homem tem um navio no coração
todo o homem tem um navio
tem um país a descobrir em cada mão
tem um rio no sangue tem um rio
todo o homem tem um navio no coração.

Todo o homem tem um onde e tem um quando
um tempo de partir um tempo de voltar
sete palmos na terra mil caminhos no mar.
Todo o homem se perde.
Todo o homem se encontra.
E tem um tempo em que se mostra.
E tem um tempo em que se esconde.
Todo o homem tem um por e tem um contra.
Todo o homem se perde.
Todo o homem se encontra:
todo o homem tem um quando e tem um onde.

O sétimo soneto do Português Errante (p.397-8)
Eu sou o bem amado o mal amado
país a quem dei tudo e me rejeita
país que só me quer crucificado
porque não sou de tribo nem de seita.

O coração lhe dei na mão direita
e em troca tive os cravos da paixão
país a quem dei tudo e me rejeita
país por quem fui sim e me diz não.

Já seu nome escrevi como quem reza
quando tudo era longe e a porta estreita
país a que chamei país amado.

O coração lhe dei na mão direita
e estou de pé no cimo da tristeza
país que só me quer crucificado.


A António Sérgio
Tu não propunhas solução;
Interrogavas.


Tu despiste a casaca do Absoluto
E vieste arranhar-te nas pedras vivas.

Tu vieste dizer que o rei vai nu
E estavas contra em tempo de ser por.


Tu chegavas à porta da evidência
Pelos caminhos do talvez.


Demolidor do mito e da certeza
Abriste as avenidas da discussão
Nesta apagada e vil tristeza.


E quando outros em nome da fé
Matavam com fé a nossa crença,
Tu disseste que todo o dogma é uma doença
E ensinaste-nos a crença do porquê.


Poemas escritos por Manuel Alegre
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Uma jornalista pergunta a um alentejano, já reformado que se encontrava sentado junto à sua casa:

O senhor, se não tivesse emigrado, o que tinha?
O que tinha? Tinha o mesmo que têm os outros que não emigraram: tinha o dia p'ra andar por aí e a noite p'ra dormir.

mailto:maria.c.figueiras.portugal@gmail.com

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Os dois mundos" de Platão

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Os dois mundos – A alegoria da caverna de Platão


Hoje transcrevo parte do livro “A República” escrito por Platão da Guimarães Editores, vol. VII, pp.10-17. Platão que nasceu no ano 427a.C. e morreu no ano 347a.C.:


“(...) - Depois disto – continuei – imagina tu, Glauco, a nossa natureza, segundo é ou não esclarecida pela cultura em comparação com uma situação tal como esta: imagina homens que vivem numa morada subterrânea em forma de caverna, cuja entrada está aberta à luz a todo o comprimento. Eles encontram-se ali desde a infância, com as pernas e o pescoço presos por correntes, de tal maneira que não podem mudar de posição, nem ver senão o que está à sua frente, pois as cadeias que os prendem impedem-nos de virar a cabeça. Por detrás deles brilha, vinda de longe e do alto, a luz de um fogo. Entre esse fogo e os prisioneiros supõe uma ladeira íngreme, ao longo da qual foi construído um pequeno muro, semelhante ao tabique que os exibidores de fantoches colocam entre eles e o público e acima do qual mostram as suas atracções.

- Estou a ver.

- Imagina, então, ao longo desse pequeno muro, homens transportando objectos de toda a espécie e de todas as formas – figuras de homens e de animais, de pedra ou de madeira – que o ultrapassam; como é natural, entre esses carregadores alguns falam e outros passam em silêncio.

- Que estranho quadro e que estranhos prisioneiros!

- Eles assemelham-se-nos. Acreditas que esses homens, nesta situação, não têm de si próprios e uns dos outros, senão a visão das sombras que o fogo faz projectar sobre a parte da caverna que lhes fica em frente?

- Como poderia ser de outra maneira, se são forçados, toda a vida, a conservar a cabeça imóvel?

- E com os objectos que desfilam não acontece o mesmo?

- Sem dúvida!

- Por consequência, se eles conseguissem falar entre si, não te parece que julgariam nomear os objectos reais ao nomearem as sombras que vissem?

- Com certeza.

- E se, além disso, houvesse um eco que projectasse os sons da parede do fundo da prisão; não é verdade que, todas as vezes que um daqueles que passam ao longo do muro falasse, eles tomariam a sua voz pela sombra que desfilasse?

- Sim.

- É indubitável que, para homens em tais condições, a realidade não seria mais do que as sombras projectadas pelos objectos fabricados.

- Forçosamente.

- Supõe, então, como eles reagiriam se fossem libertados das suas correntes e curados da sua ignorância e se as coisas se passassem assim: que se liberte um desses prisioneiros, que o forcem subitamente a erguer-se, a voltar o pescoço, a andar, a olhar para a luz; tudo isso o fará sofrer e, ofuscado pela claridade, não será capaz de olhar os objectos de que há pouco apenas via sombras. Pergunto-te: que poderá ele responder se lhe disserem que tudo quanto vira, eram apenas vãs aparências, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objectos mais reais, ele vê de maneira mais certa? Se, por fim, lhe mostrassem cada um dos objectos que desfilavam diante dele e o obrigassem, à força de perguntas, a dizer o que eram, não te parece que ficaria embaraçado e que as sombras que via antes lhe pareciam mais verdadeiras do que os objectos que lhe mostravam agora?

- Muito mais verdadeiras.

- E se o forçassem a olhar a própria luz, não te parece que os seus olhos ficariam doridos e que se esquivaria e se voltaria para as coisas que podia olhar e lhes atribuiria maior realidade do que àquelas que lhe mostravam?

- Sim.

- E se o arrancassem da caverna e o fizessem subir a escarpada encosta e o não largassem senão depois de o terem arrastado para a luz do sol; não pensas que ele sofreria e se revoltaria de ser assim arrastado e que, uma vez em plena luz do dia, ficaria deslumbrado pela claridade, incapaz de ver um só dos objectos que lhe apresentassem como verdadeiros?

- Seria incapaz, pelo menos de momento.

- Com efeito, deveria habituar-se até chegar a ver os objectos que se encontram no mundo superior. Primeiro, distinguiria mais facilmente as sombras, depois as imagens dos homens e dos outros objectos reflectidos nas águas e só então os próprios objectos. Depois disso, elevando o olhar para a luz dos astros e da lua, contemplaria, durante a noite, os corpos celestes e o próprio firmamento mais facilmente do que, durante o dia, o sol e o seu brilho.

- Sem dúvida.

- Por fim, penso, seria capaz de olhar e contemplar o sol no seu próprio lugar tal como ele é e não a sua imagem reflectida nas águas ou em qualquer outro local.

- Com certeza.

- Então, concluiria a respeito do sol que ele é que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que é, de certo modo, a causa de tudo quanto ele e os seus companheiros viam na caverna.

- É evidente que chegaria a essa conclusão depois das suas experiências.

- Se, em seguida, se lembrasse da sua primeira morada e do conhecimento que ele e os seus companheiros ali possuíam, não te parece que se regozijaria com a mudança e que os lastimaria?

- Decerto.

- Quanto às honras e aos elogios que podiam então conceder-se mutuamente e às recompensas dadas àquele que distinguisse da maneira mais penetrante os objectos que passavam, que lembrasse mais exactamente os que passaram regularmente, em primeiro ou em último lugar, ou em conjunto e que assim fosse o mais hábil a adivinhar o que viria em seguida, pensas tu que esse homem teria inveja e ciúmes daqueles que entre os prisioneiros, tivessem essas honras e poder? Não pensaria ele como Aquiles em Homero e não preferiria cem vezes «ser apenas um moço de charrua ao serviço de um pobre camponês» e suportar todos os males a voltar às suas antigas ilusões e a viver como vivia?

- Sou da tua opinião, preferiria tudo sofrer a reviver aquela vida.

- Imagina ainda, se o nosso homem tornasse a descer à caverna e retomasse o seu antigo lugar; não ficaria ele ofuscado pelas trevas, vindo bruscamente da luz para a escuridão?

- Com certeza!

- E se tivesse de novo de discriminar as antigas sombras e discuti-las com os prisioneiros que nunca deixaram as suas cadeias, enquanto a sua vista estivesse ainda confusa e antes que os seus olhos se tivessem acostumado à escuridão, o que levaria um certo tempo, não seria ele motivo de troça? Não diriam os outros que, por ter ascendido às alturas, tinha vindo com os olhos alterados e que não merecia a pena a ascensão? E se alguém tentasse libertá-los e conduzi-los para o alto, não te parece que se pudessem agarrá-lo e matá-lo, o fariam?

- Certamente que o matariam.

- Agora é preciso, meu caro Glauco, aplicar exactamente esta imagem àquilo que dissemos; é preciso identificar o mundo visível com a estada na prisão e a luz do fogo que a iluminava com o efeito do sol. Quanto à subida para o mundo superior e à contemplação das suas maravilhas, vê tu aí a ascensão da alma para o mundo inteligível e não te enganarás sobre o meu pensamento, já que desejas conhecê-lo. Deus sabe que ele é verdadeiro! Em todo o caso, é minha opinião que nos últimos limites do mundo inteligível está a ideia do Bem, que a custo apercebemos, mas que não podemos apreender sem concluir que ela é a causa universal de tudo o que há de bom e de belo; que no mundo visível foi ela que criou e espalha a luz que no mundo inteligível é a causa da verdade e da inteligência e que é preciso vê-la para que se proceda com sageza, quer na vida privada, quer na vida pública.

- Sou da mesma opinião, tanto quanto posso seguir o teu pensamento.

- Pois bem, sê ainda da minha opinião sobre este ponto: não é de admirar que aqueles que se elevaram até ela não estejam mais dispostos a interessar-se pelos assuntos humanos e que as suas almas aspirem, sem cessar, a conservar-se naquelas alturas; pelo contrário, é bem natural, se o relacionarmos com a nossa alegoria.

- Bem natural, com efeito.

- Mas, pensas que nos devemos admirar se alguém, passando dessas contemplações divinas às miseráveis realidades da vida humana, se sentir constrangido e mesmo ridículo quando, tendo a vista perturbada e não estando suficientemente habituado às trevas aonde acaba de cair, tiver de entrar em discussão nos tribunais ou em qualquer outro lugar, sobre as sombras e de combater as interpretações daqueles que nunca viram a justiça em si mesma?

- Não, não é de admirar.

- Se fôssemos sensatos, lembrar-nos-íamos de que os olhos são perturbados de duas maneiras e por duas causas opostas: pela passagem da luz para a escuridão e pela da escuridão para a luz. Então reflectindo que estes dois casos se aplicam também à alma, quando víssemos uma alma perturbada e impotente para discernir um objecto, em lugar de rirmos sem razão, examinaríamos se, ao sair de uma vida mais luminosa, ela fica, por falta de hábito, ofuscada pelas trevas ou se, vindo da ignorância à luz, ela ficará deslumbrada por um demasiado esplendor. No primeiro caso, devíamos felicitá-la pelo seu embaraço e pela maneira como empregou a sua vida; no segundo, lastimá-la-íamos e, se quiséssemos rir à sua custa, o riso seria menos ridículo do que o que recairia sobre a alma que desce da luz.

- Essa é uma distinção muito justa.

- É preciso, pois, se tudo isto é verdadeiro, tirar a seguinte conclusão: a educação não é aquilo que muitos proclamam. Pretendem, com efeito, depositar o saber na alma, onde ele não existe, como se se introduzisse a visão em olhos cegos.

- Com efeito, é o que pretendem.

- Ora as presentes considerações mostram que toda a alma possui em si mesma esta faculdade de adquirir conhecimento e um órgão próprio para isso e, assim como a vista não pode voltar-se da obscuridade para a luz, senão voltando todo o corpo ao mesmo tempo, também é com a alma toda que se deve desviar a visão das coisas perecíveis até que ela seja capaz de suportar a vista do ser e da parte mais luminosa do ser a que se chama Bem, não é verdade?

- Sim.

- A educação é a arte de orientar a visão da alma, da maneira mais fácil e mais eficaz. Não consiste em dar a visão ao órgão que já a possui, mas, como ele está mal orientado e não olha para onde deve, ela prepara a sua conversão.

- É o que parece.

- Agora podemos admitir que as outras faculdades, chamadas faculdades da alma, são análogas às do corpo, pois é certo que, quando faltam de início, pode-se adquiri-las em seguida, por meio do hábito e do exercício. Mas há uma, a faculdade de conhecer, que parece ter alguma coisa de divino e que não perde nunca o seu poder e que, conforme a orientação que lhe damos, se torna útil e vantajosa ou inútil e prejudicial. Não reparaste ainda, a propósito dos desonestos, mas espertalhões, como o seu miserável espírito é penetrante e distingue claramente as coisas para as quais se volta? Ele não tem pouca clarividência, mas põe-na ao serviço da sua desonestidade de modo que, quanto maior é a penetração do seu olhar, pior mal causará.

- Assim é, com efeito.

- E, no entanto, se desde a infância se agisse sobre a alma assim disposta pela natureza e se a desembaraçássemos de tudo o que, como massas de chumbo, a torna pesada e que é inato e que, ligado à alma pelos laços dos festins, dos prazeres e dos apetites deste género, a orienta para o que é inferior; se, desembaraçada desse peso, a orientássemos para a verdade, esta mesma alma, nos mesmos homens, veria a verdade com muito maior clareza, tal como vê as coisas para as quais está presentemente orientada.

- Assim é.

- Não é também verosímil e necessário, em consequência do que dissemos, que não são aptos para o governo do Estado nem aqueles que não têm educação e conhecimento da verdade, nem os que dedicam toda a sua vida ao estudo; uns porque não têm na sua vida nenhum ideal segundo o qual possam orientar os seus actos, particulares ou públicos, e os outros porque nunca acederão a ocupar-se disso, pois que se julgam já instalados nas ilhas da bem-aventurança?

- É verdade.”❐

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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Principezinho de Saint-Exupéry

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Do livro "O principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry. Editora Caravela.


(diálogo entre o principezinho e a raposa)
« (...)
- O que é que “estar preso” quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens – disse o principezinho. - O que é que “estar preso” quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não – disse o principezinho. - Ando à procura de amigos. O que é que “estar preso” quer dizer?
- É uma coisa que toda a gente esqueceu – disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços – disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo ... (...)
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor, ... prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava – respondeu o principezinho – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer ...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós – disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto ...

O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. - Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade!
...................
- Olá, bom dia. Disse o principezinho.
- Olá, bom dia. Disse o vendedor.
Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede.
- Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.
- Por que é que andas a vender isso? - perguntou o principezinho.
- Porque é uma grande economia de tempo - respondeu o vendedor. - Os cálculos foram feitos por peritos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E o que se faz com esses cinquenta e três minutos?
- Faz-se o que se quiser ...
«Eu» pensou o principezinho «eu cá, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar muito de mansinho à procura de uma fonte …
.......................
O principezinho sobe, sobe ao cimo da montanha.
As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que não passavam acima dos joelhos.
Servia-se do vulcão apagado como de um palco.
“Do cimo de uma montanha tão alta como esta – pensou ele – com um olhar abarcarei todo o planeta e todos os homens.”
Porém, nada mais viu do que os picos aguçados das rochas.
Bom dia – disse para ver o que aconteceria.
Bom dia … bom dia … bom dia … respondeu o eco.
Tu quem és? - perguntou o principezinho.
Tu quem és? … Tu quem és? … Tu quem és? … respondeu o eco.
Somos amigos; eu estou só. - disse ele.
Eu estou só … eu estou só … eu estou só …. - respondeu o eco.
.......................
Tenho boas razões para pensar que o planeta de onde o principezinho vinha era o asteróide B 612. Este asteróide foi visto ao telescópio uma única vez, em 1909, por um astrónomo turco.
Nessa altura, o cientista apresentou uma grande exposição da sua descoberta a um Congresso Internacional de Astronomia. Mas ninguém o levou a sério por causa da maneira como estava vestido. As pessoas grandes são assim.
Felizmente que, para a boa reputação do asteróide B 612, um ditador turco se lembrou de impor ao seu povo, mas impor-lhe sob pena de morte, que trajasse à europeia. O astrónomo voltou a fazer a sua demonstração em 1920, mas agora muito bem vestido. E toda a gente a aceitou.


Só vos contei tudo sobre o asteróide B 612 e só vos confiei o seu número por causa das pessoas grandes. As pessoas grandes gostam de números. Quando vocês lhes falam de um amigo novo, as suas perguntas nunca vão ao essencial. Nunca vos perguntam: «Como é a voz dele? De que brincadeiras é que ele gosta mais? Ele faz colecção de borboletas?» Mas perguntam: «Que idade é que ele tem? Quantos irmãos tem? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?» Só assim é que eles pensam ficar a conhecê-lo. Se vocês disserem às pessoas grandes: «Hoje vi uma casa muito bonita de tijolos cor-de-rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado ...», as pessoas grandes não a conseguem imaginar. É preciso dizer-lhes: «Hoje vi uma casa que custou vinte mil contos.» Então, já são capazes de exclamar: «Mas que linda casa!»
Assim, se lhes disserem: «A prova de que o principezinho existiu é que ele era encantador; é que ele se ria e queria uma ovelha.» Querer uma ovelha é a prova de que existe, as pessoas grandes encolhem os ombros e chamam-vos crianças! Mas se lhes disserem: «O planeta donde ele vinha era o asteróide B 612», as pessoas grandes ficam logo convencidas e não se põem a fazer mais perguntas. As pessoas grandes são assim. Não vale a pena zangarmo-nos com elas. As crianças têm de ser muito indulgentes para com as pessoas grandes.
Mas nós, nós que entendemos a vida, claro que nos estamos bem nas tintas para os números! Eu gostava era de ter começado esta estória como um conto de fadas. Assim:
«Era uma vez um principezinho que vivia num planeta um pouco maior do que ele e precisava de um amigo ...» Para quem entende a vida, era de certeza um começo bem mais verosímil.
Porque eu não gostaria que este livro fosse lido levianamente.❐
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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Poesia de António Aleixo

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Venho partilhar convosco alguma poesia de António Aleixo. Acredito que tinha a Lei de Deus gravada no seu coração. Ainda hoje as suas verdades são tão verdade!


Poesia de António Aleixo

Jesus disse que se amassem
Aos cristãos que se proclamam
Não disse que se matassem
E eles matam-se e não se amam.

Nada peças de joelhos
A Jesus, não vás mentir;
Quem segue os Seus conselhos
Tem tudo sem Lhe pedir.


Deus disse: - Faz todo o bem
Neste mundo e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém

Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.
Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E a caridade o imploram.
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.

E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p’los outros que por nós.

Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou,
São os vendilhões do templo
Que do templo Ele expulsou.

Não mais vem como desejo,
Um mundo novo, perfeito,
Só fechando os olhos, vejo
Tal desejo satisfeito ...

Ele há gente tão mesquinha,
De tão baixa condição ...
Censuram a vida minha
Por não ser como eles são!

Engraxadores sem caixa
há-os aos centos na cidade
que só usam da tal graxa
que envenena a sociedade.

Que esperança será aquela
Que sinto desde criança,
Que ainda dou restos dela
Aos que já não têm esperança?!

Digo sempre que estou bem
- Quanto mais sofro, mais canto -
P’ra quê chorar?... se ninguém
Me quer enxugar o meu pranto!

Acho uma moral ruim
Trazer o vulgo enganado;
Mandarem fazer assim
E eles fazerem assado.

Não me dêem mais desgostos
Porque sei raciocinar ...
Só os burros estão dispostos
A sofrer sem protestar!

Traz cinismo, meu rapaz,
E no mundo serás gente ...
Porque àquele que o não traz,
Comem-no ... cinicamente.

Faz-te lobo traiçoeiro,
Inteligente e astuto ...
Se dás a ver que és cordeiro,
Não vives mais um minuto.

Se julgas pela aparência
E achas isso natural,
Terás de ter paciência,
Se alguém de ti julgar mal.

Abusas do teu poder,
Puseste-me uma mordaça
P’ra eu não poder dizer
Quem fez a minha desgraça.

Porque a mentira te agrade
Não me deves obrigar
A ocultar a verdade
E a mentir p’ra te agradar.

E quem segue os teus conselhos,
Vive, pedindo favores,
Toda a vida de joelhos,
Aos pés dos seus agressores.

P’ra veres o que merecias
Quando me fazes mal,
Pensa só no que farias
A quem te fizesse tal.

Se gostas de bem fazer
Com qualquer interesse em vista,
Não és quem pretendes ser
És simplesmente egoísta.

Esse que tira o chapéu,
Ao pedir-te, bem percebe
Que te está vendendo o céu
Pelo tostão que recebe.

Pede esmola humildemente,
Digamos, mas a verdade,
É aquilo que ele sente
Que nada tem de humildade.

Ambos se estão enganando,
Quem os estude, verá;
É um fingido, aceitando
O que outro fingido dá.

É menos parvo, a meu ver,
O que o é, sem que se veja,
Do que aquele que, sem o ser,
Se faz parvo, sem que o seja.

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que, às vezes, fico pensando
Que a burrice é uma ciência!

Num mundo de imperfeições
Aos tortos, chamam direitos
E os poucos que são perfeitos
São tidos por aleijões ...

O povo – por ser criança –
Quer vingança porque ignora
Que a sua vida piora
Quanto mais queira vingança.

Tu ainda não reparaste
Que o bom, num perfeito grau,
Sem ter o mau por contraste,
Não seria bom nem mau?!

O que era a noite sem o dia?...
E a luz sem a escuridão?...
O contraste é a razão
Porque a gente se avalia!

in Este livro que vos deixo escrito por António Aleixo, Vol II, 1ª edição, Notícias Editorial, 1978, Lisboa.

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"O Século de Fátima" de César das Neves

“O Século de Fátima” de João César das Neves
Do livro O Século de Fátima de João César das Neves, Editora PRINCIPIA, Outubro 2002, parafraseio o seguinte porque assino o que está escrito:

§ I – Terra de Sta Maria – O séc XX e Fátima
“Portugal, Terra de Santa Maria, tem a predilecção do Céu: “Se o Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu, não é por serdes o mais numeroso entre todos os povos; pelo contrário, vós sois o menor de todos eles.”(Deuteronómio 7,7) e o Papa João Paulo II confirma-nos:
“Portugal nasceu cristão! As sucessivas gerações dos vossos maiores buscaram no Evangelho a inspiração para as suas vidas e legaram-vos esta cultura constantemente enriquecida pelo cruzamento da fé cristã com os vários povos que fizeram a história da Europa e do mundo.”(Discursos do Papa João Paulo II em Portugal – Maio 1991 – Secretariado Geral do Episcopado, Lisboa.)

“No século I da era cristã, S. Tiago colocou a imagem da Virgem (Nª Sª da Oliveira) num altar na que seria mais tarde a vila de Guimarães. Quando aconteceu a invasão dos bárbaros, escondeu-se a imagem num monte sobranceiro ao templo e que ainda hoje se chama Monte de Santa Maria.”(in Santa Maria na História e Tradição Portuguesa de Miguel Oliveira, Editora Ameal, 1953, vol. I)

D. Afonso Henriques, I rei de Portugal, a 27 de Maio de 1128, concedeu a Santa Maria de Braga o título de Padroeira de Portugal nascente e passou a chamar-se Rainha Santa Maria e o templo passou à categoria de nacional.

“Na Península Ibérica, a devoção à Imaculada Conceição de Maria (isto é, Maria ser Mãe e ser Virgem) já existia desde o século VII, pois no X Concílio de Toledo em 656, havia-se fixado como festa principal da Imaculada Conceição de Maria o dia 8 de Dezembro.” (S. Frutuoso, Bispo de Dume e arcebispo de Braga. In História da Igreja em Portugal, Fortunato Almeida,1967; nova edição de Damião Peres, Portucalense Editora, Porto.)

“D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431), fundador da Casa de Bragança, em Vila Viçosa, dedica uma capela a Nossa Senhora da Conceição e manda vir a imagem de Inglaterra.

Entre Dezembro de 1645 e Março de 1646, as cortes reuniram-se em Lisboa e decidiram aclamar a Nossa Senhora da Conceição, Rainha de Portugal com festa a 25 de Março. D. João IV assina este documento e a Nossa Senhora da Conceição passa a ser a Rainha de Portugal para sempre usando a coroa real portuguesa.

(p.48) O século XX começou com uma consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus feita pelo Papa Leão XIII como consequência da insistência da Irmã Maria do Divino Coração cujo nome de nascimento é Maria Droste zu Vichering(1863-1899), madre superiora do Convento do Porto da Congregação das Irmãs do Bom Pastor.

O Papa Leão XIII publicou esta consagração a 25 de Maio de 1899 na encíclica Annum Sanctum estabelecendo que se fizesse em todas as dioceses do mundo um tríduo de preparação para a festa da consagração do Sagrado Coração de Jesus celebrada sempre na segunda sexta-feira depois do Pentecostes.
De 1914-1918 aconteceu a I Guerra Mundial.
A 6 de Novembro de 1917 aconteceu a Revolução de Outubro na Rússia que instalou no mundo um regime ditatorial que só veio a terminar nos finais deste século XX.
(p.51) A 5 de Maio de 1917 o Papa Bento XV, angustiado devido a três anos de uma guerra que parecia não terminar, só com a destruição do mundo, decidiu convocar uma campanha mundial de oração pela paz: oração ao Sagrado Coração de Jesus por intercessão de Nossa Senhora. Também ordenou que se juntasse à Ladainha de Nossa Senhora a invocação: - Rainha da Paz, rogai por nós!
De 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917, Nossa Senhora apareceu seis vezes na Cova da Iria trazendo uma mensagem.

(p.193) “A 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria Nossa Senhora diz a Lúcia:
- Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Esta Guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, depois vai começar outra pior.
Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, a Rússia espalhará os seus erros pelo mundo promovendo guerras e perseguições. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á à Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de paz.(...)”

A 23 de Janeiro de 1918, foi proclamada no Vaticano a beatificação de D. Nuno Álvares Pereira, antigo senhor das terras de Fátima, pois era Conde de Ourém. D. Nuno Álvares Pereira dedicou toda a sua vida à Nossa Senhora da Conceição.
De 1929 a 1933, aconteceu a Grande Depressão nos Estados Unidos que se transmitiu ao mundo inteiro.
De 1939 a 1945, aconteceu a II Guerra Mundial entre 23 de Outubro e 19 de Novembro de 1942 inverteu-se o curso desta guerra. A 31 de Outubro de 1942, a pedido da Nossa Senhora de Fátima, o Papa Pio XII consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria.
(p.57) “A 10 de Dezembro de 1925, Nossa Senhora aparece à Ir. Lúcia no seu quarto em Pontevedra e pede-lhe que se propagasse no mundo a Comunhão Reparadora nos primeiros sábados de cinco meses seguidos, fazendo com o mesmo fim, uma confissão, um quarto de hora de meditação sobre os mistérios do Rosário e rezando um Terço com o mesmo fim de reparação do Imaculado Coração de Maria.
A 13 de Junho de 1929, Nossa Senhora aparece à Ir. Lúcia no seu quarto em Pontevedra e pede-lhe a Consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração.
Nossa Senhora promete, em atenção à Consagração que Portugal fez ao Imaculado Coração de Maria, uma protecção especial durante a Guerra e que esta protecção será a prova das Graças que Deus concederá às outras nações que fizerem a mesma consagração.
A 13 de Maio de 1931, em Fátima, os bispos portugueses consagram Portugal ao Imaculado Coração de Maria.
Em 1936, a portuguesa Alexandrina Maria da Costa (1904-1955) após as suas visões pede ao Papa a Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria.
A 13 de Maio de 1938, em Fátima, os bispos portugueses renovam a Consagração de Portugal ao Imaculado Coração de Maria e enviam um telegrama ao Papa Pio XI pedindo a Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria.
Em 1941, a portuguesa Alexandrina Maria da Costa, após as suas visões renova o seu pedido ao Papa da Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria.
A 04 de Maio de 1944, por decreto, o Papa Pio XII aprova uma Missa e um Ofício próprios para o Dia 22 de Agosto – Festa do Imaculado Coração de Maria. Este documento foi publicado a 22 de Fevereiro de 1945.
Actualmente o dia 22 de Agosto é a Festa da Virgem Maria Rainha e a Festa do Imaculado Coração de Maria é no dia seguinte à Festa do Imaculado Coração de Jesus, isto é, no sábado seguinte ao segundo domingo do Pentecostes.
Em Maio de 1945, acaba a II Guerra Mundial.
A 6 de Agosto de 1945, bombas atómicas arrasam Hiroshima e três dias depois Nagasaqui.
A 24 de Junho de 1948, começou o bloqueio da zona ocidental de Berlim que terminou na construção do Muro de Berlim a 13 de Agosto de 1961.
De 1950 a 1953, guerra na Coreia que acabou sendo dividida.
Em 1962, crise dos mísseis de Cuba (com os Estados Unidos).
De 1963 a 1972, segunda guerra do Vietname por influência dos dois sistemas políticos.
O Movimento hippie e a revolta estudantil de Maio de 1968 mostram muito mal-estar no progresso da sociedade.
Em Agosto de 1968, aconteceu a Primavera de Praga que foi logo esmagada pelos tanques russos.
A 13 de Maio de 1981, o Papa João Paulo II sofre um atentado: um tiro de pistola de pressão a cerca de 30 metros de distância. Chega ao hospital já em coma com o abdómen perfurado. Recuperou no hospital e ficou a saber que aquele atentado tinha sido anunciado em Fátima à Irmã Lúcia em 17 de Julho de 1917 por Nossa Senhora a quem ele, no dia 16 de Outubro 1978, consagrou o seu pontificado com o lema Totus Tuus, Maria e que essa notícia fazia parte do Terceiro Segredo de Fátima.
Ficou a saber também que era sua obrigação de Papa fazer a Consagração do Mundo e da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.
A 13 de Maio de 1982, João Paulo II VEM PELA PRIMEIRA VEZ a Fátima, em peregrinação, agradecer à Senhora do Céu a protecção divina que teve no atentado sofrido exactamente um ano antes.
Em 1982, na mesma peregrinação, o Papa João Paulo II peregrina ao Santuário da Imaculada Conceição de Maria em Vila Viçosa, Alentejo.
A 25 de Março de 1984, o Papa João Paulo II na Praça de S. Pedro, mas diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima que se venera na Capelinha das Aparições do Santuário de Fátima, ida a Roma de propósito para o efeito, faz a Consagração do Mundo e da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Finalmente o pedido de Nossa Senhora fora cumprido e realizara-se o milagre.
A 11 de Março de 1985, Gorbatchov é eleito presidente da URSS.
A 26 de Março de 1989, houve eleições para o Congresso dos Deputados do Povo da URSS com larga derrota dos candidatos do partido comunista.
Em Maio de 1989, Gorbatchov anuncia que a URSS vai abandonar a Doutrina de Brejnev.
A 02 de Maio de 1989, a Hungria decidiu baixar a Cortina de Ferro que a separava da Áustria e a 11 de Setembro abre mesmo essa fronteira.
A 09 de Novembro de 1989, caiu o Muro da Vergonha permitindo a reunificação alemã a 03 de Outubro de 1990.
A 24 de Agosto de 1989, entrou em funções o I Governo não-comunista num país do leste: a Polónia.
A 10 de Dezembro de 1989, foi a vez da Checoslováquia.
A 25 de Dezembro, foi executado o ditador romeno Nicolae Ceausescu.
A 11 de Março de 1990, a Lituânia declarou a sua independência.
A 04 de Maio de 1990, a Letónia declarou a sua independência e votou-a a 03 de Março de 1991.
A 12 de Junho de 1990, a República da Rússia afirmou a sua soberania.
A 16 de Julho de 1990, a Ucrânia afirmou a sua soberania também e votou a sua independência a 01 de Dezembro de 1991.
A 27 de Julho de 1990, a Bielorrússia também declarou a sua independência e votou-a a 25 de Agosto.
A 23 de Agosto de 1990, foi a vez do Turquemenistão e da Arménia.
A 25 de Agosto 1990, foi a vez do Tajiquistão que votou a sua independência a 09 de Setembro de 1991.
A 25 de Outubro de 1990, foi o Casaquistão a declarar a sua independência e votou-a a 16 de Dezembro de 1991.
A 30 de Outubro de 1990, foi a vez da Quirguizia que votou a sua independência a 31 de Agosto de 1991.
A 03 de Março de 1991, a Estónia votou a sua independência.
A 09 de Abril de 1991, a Geórgia declarou a sua independência.
A 13 de Maio de 1991, o Papa João Paulo II peregrina pela segunda vez a Fátima.
A 27 de Agosto de 1991, a Moldova votou a sua independência.
A 30 de Agosto de 1991, o Azerbajão declarou a sua independência.
A 31 de Agosto de 1991, o Uzbequistão declarou a sua independência.
A 21 de Setembro de 1991, a Arménia declarou a sua independência.
A 31 de Dezembro de 1991, a URSS deixou de existir oficialmente.
A partir de 1985, foi permitida a abertura silenciosa de muitas igrejas e alguns mosteiros.
A 27 de Outubro de 1986, acontece a I Jornadas Inter-Religiosas de Oração pela paz em Assis que contaram com a presença maciça de representantes das igrejas ortodoxas.
Em 1988, a Igreja Ortodoxa Russa celebra o seu primeiro milénio.
A 01 de Dezembro de 1989, o presidente da URSS, Gorbatchov, visitou o Papa no Vaticano.
A 13 de Outubro de 1991, deu-se a primeira peregrinação oficial russa ao Santuário de Fátima presidida pelo administrador apostólico de Moscovo. Na mesma ocasião foi colocado um ecrã gigante no grande auditório da agência Novosti para a transmissão directa das cerimónias da Cova da Iria. O programa incluía também uma pequena história de Fátima, as cerimónias da bênção dos doentes e do adeus terminando com perguntas feitas aos espectadores em Moscovo.
De 27 a 30 de Junho de 1995, o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I visita o Vaticano.
A 16 de Outubro de 1996, o Cardeal Ratzinger visita a Ir. Lúcia no Carmelo de Coimbra.
De 21 a 25 de Janeiro de 1998, João Paulo II visita Cuba, país ainda comunista, pela primeira vez.
A 13 de Maio de 2000, o Papa João Paulo II peregrina ao Santuário de Fátima pela terceira vez em agradecimento por Nossa Senhora lhe ter salvado a vida.
A 08 de Outubro do Ano 2000, no encerramento do Jubileu dos Bispos, o Papa João Paulo II, de joelhos, fez a Consagração do Terceiro Milénio a Nossa Senhora diante da imagem da Nossa Senhora de Fátima levada de Fátima com este propósito ao Vaticano.
A 24 de Janeiro de 2002, João Paulo II preside às II jornadas Inter-religiosas de Oração pela Paz em Assis.
A 13 de Maio de 2005, o Papa Bento XVI consagra o seu pontificado a Nossa Senhora de Fátima.

§ II – A Mensagem De Fátima
Esquematizando a Mensagem de Fátima podemos afirmar que é composta por três elementos básicos:

1- A Dor de DEUS;
2 - O pecado e o sofrimento como consequência e resultado do pecado;
3 - Os apelos da Senhora de Fátima com o objectivo de pôr fim ao pecado e consequentemente ao sofrimento.
Os apelos da Senhora de Fátima têm três grandes áreas:

1-A oração;
2-O sacrifício reparador (≠ de mortificação do corpo; não foi isto que a Senhora pediu);
3-A emenda de vida = conversão = não mais praticar o mal.

A Senhora de Fátima faz também três pedidos relacionados com a devoção ao Imaculado Coração de Maria:

1-Rezar o Terço todos os dias:
2- A devoção dos cinco primeiros sábados;
3- A consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

O que fere mais Deus, não é a multidão de ateus, afastados da Igreja e sem fé. O que fere Deus é a multidão de cristãos apáticos e tíbios que no seu quotidiano vivem praticando o paganismo dominante, vestindo de vez em quando uma roupa dominical para cumprir o preceito. Os que se dizem cristãos, mas que vivem e praticam como pagãos nos seus critérios de julgamento e actos, nas suas razões de viver, nos seus propósitos de existência; esses são os que mais e mais profundamente ferem Deus.
Logo na primeira aparição do Coração de Jesus, estava presente o Coração de Maria. Santa Margarida Maria escreveu que: “Os Sagrados Corações de Jesus e de Maria são de tal modo conformes e unidos que não se pode ter entrada num sem a ter no outro, com a diferença de que o Coração de Jesus não tolera almas senão sumamente puras, enquanto que o Coração de Maria purifica, mediante as graças que lhes obtém, as que o não são, pondo-as em condições de serem recebidas pelo Coração de Jesus.”
E a Irmã Lúcia explica: “Vemos assim como a devoção ao Coração Imaculado de Maria se há-de estabelecer no mundo por uma verdadeira consagração de conversão e doação. Como pela consagração, o pão e o vinho se convertem no Corpo e Sangue de Jesus Cristo fundidos com o Ser Vital no Coração de Maria. É desta forma que este Coração Imaculado há-de ser para nós o refúgio e o caminho que leva a Deus.
Em que consiste esta devoção?

Em três actos muito simples:
1.O Terço quotidiano;
2.Os Primeiros Sábados;
3.A consagração da Rússia.”

Jacinta perguntava constantemente a Lúcia:
- Por que é que Nossa Senhora não mostra o inferno aos pecadores como mostrou a nós? Se eles o vissem, já não pecavam para não irem para lá.

Quando em 1941 foi permitido à Irmã Lúcia revelar a primeira parte do segredo, a Senhora satisfez o pedido da sua Jacintinha; mas a certeza da pastorinha não se realizou. Pelo contrário, confirmou-se a profecia de Abraão na parábola do pobre Lázaro. Disse o rico:”Não, pai Abraão, mas se alguém de entre os mortos for procurá-los, eles arrepender-se-ão” e Abraão respondeu-lhe: ”Se não ouvem Moisés e os profetas, tão-pouco acreditarão, se um morto ressuscitar.”

O segundo grande apelo da Mensagem de Fátima é o sacrifício reparador. O Anjo pede:

Oferecei constantemente ao ALTÍSSIMO orações e sacrifícios. De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício ao Senhor. SOBRETUDO, ACEITAI E SUPORTAI COM AMOR O SOFRIMENTO QUE O SENHOR VOS ENVIAR.

(Na minha opinião, o Anjo não pede mortificações do corpo; isso são conselhos à posteriori. O corpo é templo de Deus; não pode ser mortificado. Estaria em contradição, não viria de Deus. Sacrifícios reparadores são renúncias que devem ser oferecidas ou perdem-se. Por exemplo continuar a estudar, quando só nos apetece passear; não comer um bolo por gulodice; principalmente não nos revoltarmos contra as pessoas ou Deus com as injustiças, mas nunca perdermos a noção de injustiça e contrariarmos as injustiças para que elas deixem de existir. Agora respeitarmos o nosso corpo e darmos-lhe o alimento que lhe é necessário.

O sacrifício reparador tem o objectivo de sujeitar a vontade para uma supremacia do discernimento, da caridade. Assim como “tenho direito a tudo, mas nem tudo me convém.”)

“Qual terá sido o motivo por que Nossa Senhora nos mandou rezar o Terço todos os dias e não mandou participar todos os dias na Santa Missa?

Trata-se de uma pergunta que me (Ir. Lúcia) tem sido feita muitas vezes. Certeza absoluta do porquê não a tenho. Digo, por isso, simplesmente o que me parece e me é dado compreender a este respeito. Na verdade, a interpretação do sentido da Mensagem deixo-a inteiramente livre à Santa Igreja porque é a ela que pertence e compete, por isso, humildemente e de boa vontade me submeto a tudo o que ela disser e quiser corrigir, emendar ou declarar.

Penso que Deus é Pai e como Pai acomoda-se às necessidades e possibilidades dos Seus filhos. Ora, se Deus, por intermédio de Nossa Senhora, nos tivesse pedido para participarmos e comungarmos todos os dias, por certo haveria muitos a dizerem que não lhes era possível. Uns pela distância que os separa da igreja mais próxima, outros por causa das suas ocupações, o seu estado de saúde, ... ao contrário, rezar o Terço é acessível a todos, pobres e ricos, sábios e ignorantes, crianças e adultos.
Todas as pessoas de boa vontade podem e devem, diariamente, rezar o Terço. Para quê?
Para nos pormos em contacto com Deus, agradecer os Seus benefícios e pedir-lhe as graças que temos necessidade.
Dado que todos temos necessidade de orar, Deus pede-nos, digamos como medida diária, uma oração que está ao nosso alcance: a oração do Terço, que tanto se pode rezar em grupo como individualmente; tanto na igreja diante do Santíssimo como no lar em família ou a sós; tanto pelo caminho quando em viagem como num tranquilo passeio pelos campos. A mãe de família pode rezar enquanto embala o berço do filho pequenino ou trata do arranjo da casa. O nosso dia tem vinte e quatro horas ... não será muito se reservarmos um quarto de hora para a vida espiritual, para o nosso trato íntimo e familiar com Deus.
Por outro lado, eu creio que, depois da oração litúrgica da missa, a oração do Terço, pela origem e sublimidade das orações que o compõem e pelos Mistérios da Redenção que recordamos e meditamos em cada dozena, é a oração mais agradável que podemos oferecer a Deus e de maior proveito para as nossas almas. Se assim não fosse, Nossa Senhora não o teria recomendado com tanta insistência.” (Irmã Lúcia, 2000, pp.121-123)
“S. Luís Maria Grignion de Monfort (1673-1716) ordenado sacerdote em 1700, foi um grande pregador e dedicou todo o seu apostolado ao Rosário e à Santa Mãe de Deus. O seu livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem foi terminado por volta de 1712.
Ele escreve:
Primeira verdade – o fim último de toda e qualquer devoção deve ser Jesus Cristo, Salvador do mundo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
A salvação do mundo começou por Maria; é por Ela que se deve consumar. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não se manifestou a fim de que os seres humanos, ainda pouco instruídos e esclarecidos sobre a Pessoa de Seu Filho, não se afastassem da verdade.
Na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deve ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo. Através dela fará conhecer, amar e servir Jesus Cristo, uma vez que já não subsistem as razões que O levaram a ocultar, durante a vida, a Sua Esposa e a revelá-la, só muito pouco, após a Sua pregação do Evangelho.
O poder de Maria sobre todos os demónios brilhará particularmente nos últimos tempos em que Satanás armará ciladas contra os humildes escravos e pobres filhos, que ela suscitará para lhe fazer guerra. Eles serão pequenos e pobres na opinião do mundo, humilhados perante todos, calcados e perseguidos; mas, em contrapartida, ricos da Graça de Deus que Maria lhes distribuirá abundantemente.
Os grandes homens que hão-de vir, Maria os suscitará por ordem do Altíssimo. Mas quando e como acontecerá isto? ... Só Deus o sabe.” 

§ III – As Orações Transmitidas
Loca do Cabeço – Primavera de 1916
- Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.
Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:
Orai assim. Os corações de Jesus e de Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.

Loca do Cabeço – Outono de 1916
... trazendo na mão um cálix e sobre ele uma Hóstia da qual caíam dentro do cálix algumas gotas de sangue. Deixando o cálix e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se por terra e repetiu três vezes:
Nossa Senhora – Cova da Iria, 13 de Julho de 1916
- Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial quando fizerdes algum sacrifício (só por escolha e claro que a consequência será sofrer tudo o que os outros deveriam sofrer.):
- Quando rezardes o Terço, dizei depois de cada Mistério:
“- Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que dormais com a corda; trazei-a só durante o dia.”
Na minha opinião e depois de me terem feito passar por muito e usando do discernimento; tenho quase a certeza que esta frase não é de Nossa Senhora, mas de homem ou mulher a se fazer passar por ela, por vingançazinha pelo que os responsáveis da Igreja estavam a ouvir da opinião pública e dos seus superiores. 
§ IV – Conclusão
Na visão de 1929, a Irmã Lúcia vê a Santíssima Trindade, a Eucaristia, a Senhora: «Sob o braço esquerdo, umas letras grandes como se fossem de água cristalina que corressem para cima do altar, formavam estas palavras: Graça e Misericórdia.
A verdade de Fátima está na total entrega a Deus corporizada nestas duas palavras. Toda a nossa vida é, simplesmente Graça e Misericórdia. O bem que fazemos vem da Graça; a Misericórdia limpa-nos da maldade que em nós existe, após a nossa conversão. Foi a Graça de Deus que nos fez nesta vida e é a Misericórdia de Deus que nos levará para a próxima. Tudo na nossa vida se reduz a Graça e Misericórdia. 
Trabalho concluido a 09 de Junho de 2005 
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